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Paulo Nogueira Batista afirma que Brasil pode ser superpotência

Economista vê Brasil travado, mas ainda capaz de crescer se o país rever juros, política industrial e estratégia externa

Paulo Nogueira Batista Júnior (Foto: Reprodução Youtube)

247 - Paulo Nogueira Batista vê o Brasil travado, mas ainda capaz de crescer se o país rever juros, política industrial e estratégia externa. Em entrevista, o economista afirmou que o terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva apresentou resultados que classificou como razoáveis, com crescimento, queda do desemprego e melhora da renda, mas sustentou que o país continua preso a limitações estruturais que impedem um salto de desenvolvimento.

A avaliação foi feita por Paulo Nogueira Batista Jr. em entrevista ao programa 20 Minutos, do Opera Mundi, conduzido por Breno Altman, em um debate centrado na política econômica do governo Lula, na reindustrialização, no papel dos BRICS e nos efeitos da escalada militar no Oriente Médio.

Ao longo da conversa, o ex-diretor do Fundo Monetário Internacional e ex-vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS sustentou que houve mudança em relação aos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, mas disse que o atual ciclo está longe de representar uma inflexão estrutural capaz de recolocar o país na rota de uma estratégia nacional de desenvolvimento.

Segundo ele, o governo conseguiu combinar crescimento, ainda que modesto, com redução do desemprego, valorização do salário mínimo e algumas mudanças tributárias voltadas à renda mais alta. Mesmo assim, afirmou que a administração federal convive com contradições profundas e com setores que, em sua leitura, operam em sentido oposto ao discurso oficial de reindustrialização e soberania.

Paulo Nogueira Batista rejeitou a ideia de que a política econômica do governo seja integralmente neoliberal, mas argumentou que há uma convivência permanente entre medidas de estímulo e mecanismos que, na prática, limitam o avanço da economia. Na definição usada por ele, trata-se de uma política contraditória, incapaz de romper inteiramente com a lógica herdada dos anos anteriores.

Ao comentar o novo arcabouço fiscal, o economista disse que o modelo é melhor que o teto de gastos do período Temer, mas considerou que ele continua impondo amarras excessivas à expansão do investimento público e às despesas sociais. Para ele, as metas de resultado primário foram desenhadas de forma ambiciosa demais, o que acaba produzindo pressões recessivas e comprimindo a capacidade de ação do Estado.

Na mesma linha, ele avaliou que houve avanço quando o governo optou por ampliar a arrecadação sobre os mais ricos em vez de apostar apenas em cortes. Ainda assim, argumentou que esse movimento perde força diante do peso da despesa financeira. “O déficit primário é 0,8% do PIB. A despesa de juros líquida é da ordem de 8% do PIB”, afirmou. Em seguida, resumiu o efeito distributivo dessa dinâmica: “É uma transferência direta pros mais ricos”.

A crítica mais dura recaiu sobre a política monetária. Embora tenha reconhecido diferenças pontuais na atual direção do Banco Central, Paulo Nogueira Batista afirmou que os juros seguem em patamar incompatível com uma estratégia consistente de desenvolvimento. Para ele, a estrutura da autoridade monetária continua excessivamente vinculada à visão do mercado financeiro, o que trava investimento, encarece o crédito e desestimula a produção.

Nesse ponto, ele também questionou o modelo institucional do Banco Central e defendeu regras mais rígidas para impedir a promiscuidade entre a autoridade monetária e o sistema financeiro privado. “Seria introduzir uma quarentena pros diretores do Banco Central”, disse, ao argumentar que a passagem direta de dirigentes para bancos e consultorias reforça incentivos contrários ao interesse público.

Sobre a prometida reindustrialização, o economista foi taxativo ao dizer que ainda não vê resultados concretos capazes de indicar uma mudança de perfil produtivo. Na sua avaliação, os programas anunciados pelo governo têm formulação que não é necessariamente ruim, mas esbarram em falta de vontade política, incoerência estratégica e, sobretudo, na combinação entre juros elevados e abertura comercial.

“Eu não notei”, respondeu, ao ser perguntado se já identifica sinais efetivos de reindustrialização. Em seguida, resumiu o problema: “Como é que você vai dizer pros empresários, venha investir, se a taxa de juro oferece uma rentabilidade segura para qualquer um?”. Para ele, esse ambiente torna mais atraente o ganho financeiro do que o risco produtivo de investir na indústria.

Paulo Nogueira Batista também fez duras críticas ao acordo entre Mercosul e União Europeia, tratado por ele como um erro estratégico. Segundo sua análise, o pacto oferece pouco ao setor agroexportador e, em contrapartida, amplia a vulnerabilidade da indústria nacional diante da competição europeia. “É um acordo neoliberal, para não dizer neocolonial”, afirmou.

Na mesma entrevista, ele declarou não compreender por que o presidente Lula decidiu assumir pessoalmente a defesa do acordo. Para o economista, mesmo as mudanças introduzidas pelo atual governo foram laterais e não alteraram a essência do texto herdado das negociações anteriores. Em sua avaliação, a abertura prometida aos produtos industriais europeus tende a aprofundar a desindustrialização brasileira e enfraquecer também segmentos da agricultura familiar.

Ao tratar da relação com a China, Paulo Nogueira Batista disse que o diálogo com os chineses é, em sua experiência, mais viável do que com Estados Unidos e Europa. Ainda assim, advertiu que Pequim age de acordo com seus próprios interesses e não vai, por iniciativa própria, reorganizar a inserção produtiva brasileira. Para ele, caberia ao Brasil defender com firmeza uma agenda que condicionasse investimentos externos à geração de nova capacidade produtiva, empregos e encadeamentos locais.

A entrevista também abordou os BRICS. O economista avaliou que o Brasil não aproveitou plenamente a presidência do bloco em 2025 e perdeu a oportunidade de empurrar temas monetários e financeiros em meio ao avanço das tensões com Washington. Na sua leitura, o país foi excessivamente cauteloso justamente quando a conjuntura internacional exigia mais clareza estratégica.

Nesse contexto, ele sustentou que o Brasil continua aquém de seu próprio potencial geopolítico. Ao defender essa tese, destacou o peso territorial, demográfico e econômico do país, mas argumentou que a grande fragilidade brasileira está na incapacidade de suas elites dirigentes de formular um projeto nacional de longo prazo. “O Brasil é um gigante. Só que é um gigante de pés de barro”, resumiu.

O cenário internacional entrou na conversa sobretudo a partir da guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. Paulo Nogueira Batista disse que a crise já produz efeitos importantes sobre o mercado de energia e pode alterar de maneira duradoura a economia internacional. Na avaliação dele, o bloqueio parcial do Estreito de Ormuz pressiona fluxos essenciais de petróleo e gás, atinge países asiáticos dependentes de importação e amplia a instabilidade global.

Para o Brasil, porém, ele enxergou um efeito ambivalente. De um lado, a alta do petróleo pressiona a inflação doméstica e pode gerar desgaste político para o governo. De outro, o país aparece em posição mais favorável do que em crises energéticas passadas, por ser exportador líquido de petróleo. “O Brasil é um ganhador”, afirmou, ainda que tenha ponderado que o efeito positivo convive com custos internos sobre preços e combustíveis.

Na reta final da entrevista, o economista afirmou que um eventual quarto mandato de Lula poderia representar a última chance de deixar uma marca mais profunda de transformação. Para isso, defendeu revisão do arcabouço fiscal, Banco Central menos ortodoxo, política de investimento público mais agressiva e mudanças na composição política do núcleo econômico e diplomático do governo.

Mesmo crítico, Paulo Nogueira Batista sustentou que o país ainda reúne condições objetivas para voltar a ocupar posição de maior relevância no sistema internacional. Seu diagnóstico, porém, é que isso exigiria romper com a acomodação atual e recolocar no centro do debate uma estratégia nacional de desenvolvimento, proteção produtiva, soberania energética e reconstrução industrial.

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